Sagrado Segredo, filme de André Luiz Oliveira, é um vitral que reflete a conflitiva relação entre religião e espiritualidade. A linha narrativa aborda a religiosidade popular, através da representação da Paixão de Jesus, ao mesmo tempo em que revela o impacto que os valores evangélicos exercem sobre a vida real de atores a atrizes, sobrepondo-se, entretanto, ao fenômeno religioso, a lucidez espiritual do depoimento do físico quântico Amit Goswami. Este é o ponto alto do filme, que propõe uma espiritualidade capaz de transcender as religiões e induzir à experiência de Deus, ao amor – a si, ao próximo, à natureza e a Deus – como sentido radical da existência humana. Eis um filme que encanta, faz pensar e, sobretudo, orar.

Frei Betto

 

Meu irmão, seu filme é emocionante, muito belo, tudo converge para um sentimento de espiritualidade – o que está sendo mostrado, como está sendo mostrado.

Além de ser um exemplo brilhante da arte contemporânea em que está se transformando o que antes se chamava documentário e hoje, como em Sagrado Segredo, se expressa como ensaio, um cine-ensaio que ultrapassa e digere gêneros e comportamentos artísticos.

Tenho de confessar que meu encantamento por seu filme tem a ver (deve ter) com a minha relação com Cristo, que entendo como um Homem que por suas qualidades humanas e virtudes espirituais se aproximou até muito perto de Deus, se transmutou em divindade, e não um Deus que se fez Homem, como querem as religiões. Principalmente porque assim não tem graça, Deus se transformar em Homem é um milagre corriqueiro, já que Deus pode tudo. O inverso, esse sim, é o Grande Milagre: o Homem transmutar-se em Deus. O processo dessa minha relação com o mito (ou o homem) Cristo teve e tem muito a ver com o que está no filme, inclusive porque interpretei o dito cujo no teatro, em um espetáculo chamado Via Crucis, a Humanidade de Cristo montado aqui no Rio em 1973 (um dia a gente conversa sobre isso).

Claro que tem a ver, mas acredito que o filme tocará qualquer pessoa, mexerá com qualquer pessoa, mesmo as menos relacionadas com a espiritualidade, exatamente porque cutuca no que está dentro de todo mundo: o mistério.

Vi o filme com a Conceição, que teve os mesmos sentimentos que eu e que, como eu, também sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

abração do

Orlando Senna

André Luiz Oliveira emociona-se ao falar com o repórter do Estado. “São tantos anos para realizar e lançar um filme. A gente fica vulnerável. Ouvir falar bem do que a gente fez com tanta dificuldade reconforta a alma.” Até o norte-americano Terrence Malick deixou de ser bissexto e, após A Árvore da Vida, que ganhou a Palma de Ouro no ano passado, estreia em Veneza o novo longa, com o qual vai tentar o Leão de Ouro. Oliveira continua bissexto. Mais que isso – sua carreira contabiliza quatro longas em 40 anos de carreira, um a cada dez anos.

O mais recente deles foi concluído em 2008, mas só agora está em cartaz no Arteplex Itaú – em uma sessão diária. A lógica do mercado é infernal. Sagrado Segredo poderá muito ser o melhor filme brasileiro do ano, o melhor em anos. O mais arriscado, é, com certeza. E é difícil de catalogar. Por isso, vai para o gueto. Começa como ficção, vira um documentário sobre a encenação da Paixão de Cristo em Divinópolis, no Distrito Federal, prossegue como documentário, entrevistando o físico quântico Amit Gonswami, que usa ferramentas científicas para debater a religião, volta à ficção como a história de uma equipe (reduzida) que roda um filme, justamente sobre a via-crúcis e Gonswami, buscando respostas para a perplexidade do menino que, na abertura, lança seu olhar sobre a representação do homem na cruz.

Como se classifica um filme desses? Docudrama? Cinema de bordas? Oliveira desloca-se através de códigos e gêneros. Lembra Carlos Reichenbach, que morreu há cerca de dois meses. Não é um movimento deliberado nem planejado, mas algo que nasce do desejo de transgressão que alguns autores carregam e que os faz, permanentemente, se insurgir contra todo o dogma. O baiano André Luiz Oliveira deixou sua marca no cinema marginal com Meteorango Kid – O Herói Intergaláctico, de 1969, no qual, vale lembrar, já havia uma crucificação. Fez depois A Lenda de Ubirajara, em 1975, o mais belo filme de índio do cinema brasileiro – e se trata de um elogio pequeno para suas grandes qualidades -, chegando a Louco por Cinema, em1995.

O Cristo crucificado, a relação com o sagrado – o índio frente à natureza -, a loucura que é fazer cinema no País. Tudo se combina em Sagrado Segredo. “É uma coerência interna, de dentro”, admite Oliveira. Ele esquece todo sofrimento. Há tranquilidade no ato de filmar como quer. Em 1991, quando foi morar em Brasília, ele vivia um momento intenso da vida. Oliveira talvez seja o único autor brasileiro que se recusa a falar em carreira. “Sou cineasta de vez em quando”, resume. Ao chegar a Brasília, de cara, ele foi ver a representação da Paixão de Cristo. “É uma coisa grandiosa, um paradoxo, uma festa pagã que surge da união comunitária”, avalia. Nasceu ali a vontade de fazer “alguma coisa” – o quê? – sobre o assunto. O desejo voltou no começo dos anos 2000, quando seu pai morreu. O sentimento de orfandade percorre o filme, na figura do menino desamparado. A mãe de luto, há até um caixão fechado, mas a imagem é tão breve que muitos nem notam.

Os “deslocamentos”, como ele diz, muitas vezes nem são vistos. Passam despercebidos, quando não recebem a etiqueta de “malfeito”. E, no entanto, está tudo lá. O encontro com Gonswami foi decisivo. Oliveira havia descoberto um livro do físico que concilia ciência e religião, por meio da física quântica. O livro O Universo Autoconsciente virou uma espécie de bíblia para ele. Um dia, estava com o volume na mão, na Cidade da Paz, em Brasília – Gonswami estava ali, a dois passos. Nasceu uma amizade, e uma parceria. Gonswami, no filme, fala de Cristo como um grande místico. Diz que os místicos entendem todo o mundo e correm o risco de não ser entendidos por ninguém. Poderia estar falando de Oliveira. Seu filme é muito rico – depende do olhar e da sensibilidade do espectador, de quanto ele está disposto a se jogar na estrutura não linear montada pelo cineasta. A viagem pode ser árdua. A recompensa, para carregar no coração e na mente.

Luiz Carlos Merten